Crônicas do Bettella


O dia pode esperar

O bar abre cedo. Há coisas que, se não começam logo, correm o risco de nem acontecer. A sobriedade, por exemplo.
As mesas e cadeiras de plástico são democráticas: todas desconfortáveis, todas expostas ao sol e à vida. Espalham-se pela calçada como peças de um jogo sem regras escritas, mas que ningué...

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A culpa é nossa

Edgar voltou para casa inconformado. Caminhou de um lado a outro da sala praguejando contra o mundo repetidas vezes até desabar exausto na poltrona. Levaram seu celular. Foi tudo muito rápido, como convém à eficiência moderna. Sacou o aparelho do bolso para ver as horas, e pronto: alguém com mãos le...

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Nada é tão simples quanto parece

Vou viajar para um lugar que exige vacinação contra febre amarela.
Disseram que seria fácil: bastava ir ao posto de saúde mais próximo, pedir a vacina contra a febre amarela, e pronto. Em poucos minutos, tudo estaria resolvido, devidamente registrado no gov.br. 
Fui. 
Cheguei perto das sei...

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O mundo que a gente carrega

- A gente vai passar dois dias ou vai se mudar? 
- Pois é. Tu também caprichou na bagagem. Não reclama da minha. Mulher é assim, não sabia? 
Ele balançou a cabeça como quem discorda concordando — aquele gesto híbrido que tanto serve para encerrar um assunto quanto para evitar que out...

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Inteligência não me faltou

O emburrecimento da sociedade é fato. Basta ligar a tevê, abrir o jornal ou assistir a debates políticos. Em contrapartida, tudo que cerca os humanos está mais inteligente a cada dia. Deve haver uma relação de causa e efeito: nós evoluímos na mesma proporção em que nossos donos involuem. Hoje, ligam...

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A subtração

Ninguém imagina que ele foi capaz de subtrair uma barra de chocolate meio amargo do patrimônio de um supermercado sem qualquer contraprestação pecuniária. Nem mesmo quem o conhece desde sempre. O passado tem lá suas ironias.
Hoje é um homem de conduta ilibada; corrige o garçom quando percebe que esq...

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A regra dos cinco segundos

Três belas fatias de pizza sabor marguerita caíram no reluzente chão de porcelanato da sala. Tensão. Levantei da cadeira como um raio, dominado pelo instinto primitivo de resgatá-las antes que fossem contaminadas pelas onipresentes bactérias, mesmo sabendo que a tal regra dos cinco segundos não resi...

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Os garçons da 926

Quem se hospeda na cabine 9235 do MSC Preziosa, tem direito a jantar todas as noites na mesa 926 do restaurante L'Arabesque, localizado na popa, no Deck 6. Reza a lenda que isso acontece em todos os cruzeiros não temáticos do verão brasileiro. O Chef é ótimo, o ambiente é requintado, e os garçon...

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Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença

Ontem fui a uma bela festa de casamento, daquelas que a gente não vê mais com tanta frequência. Lugar bem decorado, gente bonita, animada, música ao vivo, comida e bebida fartas e de ótima qualidade. Houve cuidado em cada detalhe — fácil perceber. Deu vontade de escrever sobre os vários s...

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O velho do saco

Há quem chame de terrorismo as práticas de pressão coercitiva usadas pelos pais para disciplinar os filhos nas décadas de 1960 e 1970. Terrorismo talvez seja uma palavra muito forte, mas é fato que a forma de educar mudou bastante desde então. Basta ouvir as canções de ninar que embalaram os berços ...

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