
Essa quem me contou foi o Rafa, entre uma tesourada e outra. Ele corta meu cabelo de mês em mês enquanto trocamos histórias divertidas num salão onde uma miniatura do estádio Olímpico divide espaço com tesouras, navalhas e pentes. O tempo passa rápido, quando vejo, já está pronto. Na última vez, falamos sobre a infância e a ingenuidade das crianças das décadas de setenta e oitenta. Ele tem uns quinze anos a menos que eu, mas isso não importa, infância é infância, e a dele parece ter sido tão boa quanto a minha.
Aos onze ou doze anos, a turma do Rafa tinha liberdade para brincar livremente pelas ruas do bairro, desde que não se afastasse muito de casa. Um perímetro de três ou quatro quarteirões era o permitido, mas sabe como são as crianças, proibido é sinônimo de convite. Naquele dia, estavam muito longe de casa, subiam a Borges em direção ao largo dos Açorianos onde planejavam um banho no lago, coisa inimaginável para as crianças esclarecidas de hoje. Ninguém tinha medo de leptospirose, tétano, assalto ou sequestro, só do velho do saco.
As vitrines das lojas chamavam a atenção e a turma inspecionava uma a uma com curiosidade, mas sem demorar muito, até que alguém gritou: estamos na tevê. Correram todos para ver, e estavam mesmo. A imagem de quem passava pela calçada aparecia com muita nitidez numa grande tevê que ocupava lugar de destaque na vitrine de uma famosa loja de eletrônicos da cidade. Cada movimento era registrado em tempo real, e algumas macaquices dos amigos divertiram os pedestres até que alguém lembrou: nossos pais vão saber que estamos aqui.
Mesmo com o forte ruído do aparador de costeletas, foi possível ouvir Rafa dizer que o medo tomou conta da turma quando o mais experiente sugeriu que o programa passaria na tevê e que os pais assistiriam. A aventura pelo Centro e Cidade Baixa continuou, mas sem o mesmo brilho, o fantasma de um castigo passou a assombrá-los naquele dia.
A noite foi tensa, especialmente na hora do jornal, com a família reunida na frente da tevê, mas a aparição não aconteceu. Os dias foram passando, e a apreensão da turma não arrefecia, afinal, ninguém sabia por quanto tempo precisariam esperar até que pudessem relaxar. O assunto era discutido diariamente nos encontros da turma sem conclusão ou consenso.
Rafa apontou um espelho para a minha nuca para que eu pudesse conferir o corte por outro ângulo, marcando o fim do procedimento. Não é preciso, sabemos ambos, Rafa sabe o que fazer, poderia cortar de olhos fechados, mas eu acenei um positivo com a cabeça para cumprir o protocolo, e então rimos mais uma vez da história. Uma filmadora apontada para a calçada projetando a imagem captada numa tevê foi motivo de preocupação por dias. Não existia Google, nem internet, nem mesmo computadores, apenas enciclopédias desatualizadas. Ainda assim, a falta de informação e a aplicação implacável da lei de causa e consequência pelos pais da época não paralisava ninguém. Pelo contrário: empurrava a gente para a rua.
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