Mãos na parede



Hoje começarei com um clichê. É chover no molhado: muitas boas histórias renascem quando velhos amigos se encontram. Esta surgiu enquanto assávamos um entrecot e bebíamos um bom vinho de Mendoza, celebrando um tempo em que os comes e bebes tinham menos qualidade, mas o mesmo sabor de festa. 
Éramos adolescentes no início dos anos 80, época em que os anjos da guarda viviam sobrecarregados. Numa fria madrugada de sábado, caminhávamos pela 24 de Outubro, talvez voltando do Encouraçado ou da Oswaldo; não lembro ao certo.

Fomos abordados por dois brigadianos.   

- Parados aí.

Paramos. Congelamos. Naquela época, tínhamos muito medo da polícia, mesmo  com a consciência tranquila.  

- Mãos na parede - disse um dos homens da lei.

- Mas não tem parede - respondeu meu amigo.

Ele tinha razão. Estávamos em frente ao Rib’s, havia apenas um murinho baixo, insuficiente para a tradicional posição de rendição, mas a situação pedia abstração.   

- Levanta as mãos e não complica - murmurei, para que só ele ouvisse.

- Tá de brincadeira comigo? - A resposta do PM veio em forma de pergunta.

- Somos estudantes, senhor. Temos documentos para provar. A carteira está no bolso de trás - retruquei, tentando consertar as coisas.

Depois das tradicionais averiguações e de um interrogatório básico - onde estudam, onde moram - fomos informados sobre o motivo da abordagem. 

- Dois sujeitos que fecham com a descrição de vocês acabaram de roubar um jornaleiro: jornais e dinheiro. 

- Não fomos nós, nunca faríamos isso. Não temos jornais nem dinheiro, como podem ver. 

Alguém poderia argumentar que havíamos repassado o fruto do roubo antes da abordagem, mas naquele tempo o mundo era mais ingênuo. 

Aparentemente convencidos, e um pouco contrariados, os PMs nos liberaram. Ao ouvir as palavras mágicas "estão dispensados", meu amigo saiu correndo em disparada na direção da hidráulica.

Correr numa situação dessas sempre foi confissão de culpa.

Tentei chamá-lo, mas em poucos segundos ele já estava longe. Fiquei sem saber o que fazer. Os PMs também.

Pensei em correr, mas me imaginei levando um tiro pelas costas e desisti da ideia. Constrangido, fiz um gesto vago com as mãos, como quem também não havia entendido nada, e me retirei a passos lentos, deixando claro que não fugia. Ao contrário do meu amigo.

Por sorte, os PMs não chamaram. Acho que ficaram tão perplexos quanto eu.


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