Pateta no trânsito



Esses dias, peguei carona com um amigo e percebi que ele não entende nada de sinais de trânsito. Não que eu seja um expert no assunto, conheço apenas os relevantes. Não me pergunte sobre silvos breves e silvos longos, nem sobre placas com desenhos de cerquinha ou latinha de refrigerante vista de cima. 

Assim como eu, meu amigo é motorista há muito tempo, ele não usa o tempo do sinal fechado para conferir e responder mensagens. Somos do tempo em que sinal amarelo significava corra que vai fechar. Você já reparou como o tempo do sinal amarelo está cada vez menor? Decida em alguns  milisegundos: freada brusca ou risco de multa.

Isso me faz lembrar que o trânsito brasileiro tem lá suas idiosincrasias, e cobra caro por elas. Carros cada vez mais potentes trafegam por ruas e estradas com limites de velocidade cada vez menores; carros cada vez maiores se espremem em pistas cada vez mais estreitas. Os motoqueiros já não conseguem passar sem danificar os retrovisores, e a culpa, seguindo a nova tendência, costuma encontrar abrigo confortável nas vítimas. Outro dia vi uma placa com a seguinte mensagem imperativa: "obedeça a sinalização". Ora, por que precisamos de uma placa que nos manda obedecer as outras placas? 

Meu amigo ignorou aquele sinal com um triângulo vermelho invertido de fundo branco, furou perigosamente a preferencial e me fez perceber que eu deveria intervir oferecendo tradução simultânea das placas. Ele não gostou, claro. Motorista algum gosta que deem pitaco na sua forma de dirigir. Mas o incidente não foi suficiente para arranhar nossa amizade - serviu para deixá-lo um pouco mais frustrado com o trânsito, como o Pateta, que passa de cidadão educado a motorista brigão no antigo desenho da Disney.

Eu também vivo dias de Pateta no trânsito, confesso. Às vezes tenho a impressão de que o mundo é mal-educado e se move em câmera lenta. Haja equilíbrio emocional! Quando parece que venci a batalha contra a síndrome do Pateta, surge uma impaciência só para me testar. Esses dias, vi um sujeito apressado que buzinava e esbravejava sem parar. Quando saiu do carro, começou a caminhar bem devagar. Pode isso?

 

 

 

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