Desconfie



O primeiro pivô é um evento marcante na vida de um homem. Essa frase causou sorrisos na clínica dentária que frequento. Tentaram dourar a pílula usando o termo prótese no orçamento, mas eu não caio mais nesse tipo de eufemismo. Decerto paga-se mais por próteses do que por pivôs, decerto há quem recuse o procedimento caso não seja descrito com termos aprazíveis. Depois de me certificar de que não se tratava de uma ponte, aceitei o orçamento salgado. Ponte seria demais. 

Não foi desleixo, faço questão de esclarecer. Certa vez, almoçando num conceituado restaurante da Cidade Baixa, mordi um pedregulho escondido na comida e quebrei um garboso pré-molar superior ao meio. O canal ficou exposto, foi preciso tratá-lo. Desde então, ficou fraco, quebrou três ou quatro vezes até que a dentista me convenceu a fazer o tal pivô, ou melhor, a prótese. Não será preciso colocar pino, aproveita-se a raiz e os pedaços do dente que estão bons, explicou ela. Melhor assim. 

Um pouco abalado frente à iminente instalação do primeiro dente postiço, comecei a conversar sobre o assunto com as pessoas próximas para me acostumar com a ideia, torná-la mais leve. Geralmente funciona. Descobri então, que muita gente usa pivô, mais do que imaginamos. Pense naquele colega de sorriso reluzente, no belo casal de vizinhos que você encontra com frequência no elevador, na famosa glamurosa atriz de cinema; todos eles podem estar escondendo um pivô do mundo.  

Bem, agora é só esperar três semanas para desfilar com um pré-molar de porcelana novinho em folha. Por enquanto, circulo por aí com um provisório que parece ter sido feito de Durepoxi, mas ninguém repara. Um amigo próximo passa por situação semelhante neste momento, embora o caso dele seja mais grave. Trata-se de um molar, e foi preciso perfurar o osso para colocar um pino metálico como raiz. É outra categoria, nem deveria ter o mesmo nome, mas eu não digo nada para não preocupá-lo nem entristecê-lo.   

É uma questão de tempo, todos terão essa oportunidade se viverem tempo suficiente. A minha veio um pouco antes do previsto, não fosse a ida àquele famoso restaurante ao qual nunca mais voltei, estaria ainda com a arcada natural. Enfim, marquei mais um item do checklist de experiências de vida O evento serviu também para que eu perdesse a inocência em relação ao assunto. Deixo aqui um alerta para os inocentes do Leblon: desconfie de quem chegou aos sessenta sem um pivô. Desconfie.

 

Este site utiliza cookies para garantir a melhor experiência.