A subtração



Ninguém imagina que ele foi capaz de subtrair uma barra de chocolate meio amargo do patrimônio de um supermercado sem qualquer contraprestação pecuniária. Nem mesmo quem o conhece desde sempre. O passado tem lá suas ironias.

Hoje é um homem de conduta ilibada; corrige o garçom quando percebe que esqueceram de cobrar alguma coisa e sente desconforto moral ao atravessar a rua fora da faixa. Um certo orgulho discreto dessa previsibilidade ética o acompanha, interrompido vez por outra pela lembrança nefasta daquele dia da subtração.

Naquela distante terça-feira chuvosa da pré-adolescência, entre chocolates, marshmallows, paçocas e balas coloridas, algo se desajustou dentro dele. Não foi fome, havia almoçado bem. Também não foi necessidade, tinha dinheiro suficiente para comprar muitas guloseimas. Foi um instante de distração moral, desses que passam como um pensamento bobo e já viraram ação.

A barra estava ali, discreta, embrulhada em papel fosco. Meio amargo, 70%. Ele pegou, examinou a embalagem e, quase sem pensar, colocou no bolso do casaco. Um gesto simples, automático, quase burocrático — como quem guarda uma chave. Só depois, já caminhando em direção à saída, é que a consciência reagiu:

— O que você fez?

Era tarde demais. Havia muita gente em volta para permitir um arrependimento digno, e o assistente de proteção patrimonial da loja observava tudo com olhos de lince. A farda impecável e o crachá em letras garrafais autorizavam o segurança a demonstrar descontentamento de forma contundente e encaminhar menores para uma instituição de formação juvenil.

Lá se vão mais de vinte anos, e o fantasma daquele episódio ainda o assombra. Às vezes acorda sobressaltado, sem lembrar exatamente do desfecho do sonho, apenas da sensação de estar sendo seguido entre prateleiras intermináveis. Algumas histórias não exigem absolvição, apenas uma espécie de pacto silencioso com o passado.

Outro dia, passou por aquele mesmo supermercado e entrou. A disposição das prateleiras havia mudado, os caixas eram outros, até o piso parecia diferente. Ao atravessar o corredor dos doces, sentiu o velho desconforto subir pela espinha. Parou diante da prateleira, pegou duas barras de meio amargo e colocou no cestinho.

No caixa, pagou.

Uma deixou discretamente junto às sacolas plásticas, como se tivesse esquecido.

A outra abriu e saiu comendo.

Não para apagar a culpa.

Mas para aprender a carregá-la.

E descobriu uma coisa curiosa.

Continuava sem gostar de meio amargo.

Este site utiliza cookies para garantir a melhor experiência.