
O emburrecimento da sociedade é fato. Basta ligar a tevê, abrir o jornal ou assistir a debates políticos. Em contrapartida, tudo que cerca os humanos está mais inteligente a cada dia. Deve haver uma relação de causa e efeito: nós evoluímos na mesma proporção em que nossos donos involuem. Hoje, ligamos o farol quando escurece, acionamos o limpador de para-brisa quando começa a chover, alertamos sobre possíveis colisões e freamos para evitá-las. Em breve, não precisaremos mais dos motoristas. Alguns de nós já não precisam.
Antigamente era diferente, tínhamos pouquíssima autonomia. Quantas vezes acendi a luz do óleo para alertar o patrão sobre algum perigo... Inteligência não me faltava, faltavam-me recursos técnicos. Frente às barbeiragens dos chefes, pouco podia fazer. Mas não posso me queixar, sempre foram bons comigo, mesmo tendo eu fama de beberrão e dançarino. Dançar, dançava um pouco, é verdade, mas parei de forma definitiva quando meu segundo dono colocou dois sacos de cimento no porta-malas. Beber, bebia mesmo, não posso negar.
O filme da minha vida passa agora em câmera lenta. Ainda lembro do dia em que saí da concessionária. Dr. Alberto, um sujeito educado, alinhado e perfumado, olhou, gostou e me levou passando um cheque cruzado ao portador. Apenas um cheque, tudo em menos de uma hora. Foi amor à primeira vista. Achei que teria uma vida de Rolls-Royce, mas logo descobri que ele tinha dois filhos que pisoteavam e emporcalhavam o banco de trás sem o mínimo pudor. Crianças danadas. Ele devia ter comprado uma perua. Nossa parceria não durou muito. Acho que se desgostou naquela noite chuvosa em que derrapei. A culpa não foi minha, tentei avisá-lo do perigo dando algumas tossidas, mas isso só fez piorar as coisas. Acabei numa revenda de usados da Assis Brasil com um cartaz de vende-se colado no para-brisa.
Meu segundo dono, Edu, era jovem, ao menos em espírito. Vivemos muitas aventuras juntos. Foi a época mais divertida da minha vida, corríamos e bebíamos como se não houvesse amanhã. O banco de trás era palco de suas aventuras amorosas, quase sempre nas madrugadas de sábado no disputado estacionamento do Parcão. Quantas estrepolias presenciei... A vida louca durou bons anos, até o dia em que Edu decidiu me trocar por um modelo mais novo, vendo que eu demonstrava preocupantes sinais de desgastes. Acabei no fundo de uma revenda de usados da Ipiranga com outro cartaz de vende-se colado no para-brisa.
Na revenda da Ipiranga, fiquei por muito tempo. Momento difícil, autoestima baixa, muitas lavagens, poucas visitas, nenhum passeio. Até o dia em que Seu Eugênio me resgatou do purgatório. Um sujeito simples de hábitos nobres. Me tratava como um rei, capas nos bancos, limpeza impecável, manutenção elogiável, não fossem algumas gambiarras, e direção defensiva, muito defensiva, até demais. Saíamos pouco, e com o passar dos anos, os passeios ficaram cada vez mais escassos. Coberto de poeira, fui esquecido no fundo de uma garagem de madeira, cercado por pilhas de coisas inúteis que Seu Eugênio acumulava. Não sei se ele ficou doente, se partiu para o outro mundo, ou se desistiu de mim. Recebi algumas visitas, torci para que um colecionador se interessasse por mim, mas nem sempre as coisas são como a gente quer.
Hoje estou aqui, nesse ferro-velho da BR-116, esperando que a prensa hidráulica me transforme definitivamente em sucata. Foi uma boa vida para um bom Opala SS 78. Não sofri acidentes graves nem maus-tratos, e vivi bons momentos. Um desejo não realizado? Gostaria de ter tido uma dona, mas as mulheres nunca se interessaram por mim. Talvez tenha sido melhor assim. Que venham as próximas gerações de inteligentes, híbridos, elétricos e autônomos, os humanos precisam de ajuda. Por fim, quero deixar registrado que inteligência nunca me faltou, faltaram-me recursos técnicos.
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