
Vou viajar para um lugar que exige vacinação contra febre amarela.
Disseram que seria fácil: bastava ir ao posto de saúde mais próximo, pedir a vacina contra a febre amarela, e pronto. Em poucos minutos, tudo estaria resolvido, devidamente registrado no gov.br.
Fui.
Cheguei perto das seis da tarde, que não é exatamente nem cedo nem tarde. É aquele horário em que as coisas já não querem mais acontecer. Mal peguei a ficha, faltou luz. Não digo que foi um sinal, mas também não digo o contrário.
A energia voltou logo, mas o painel que chamava as senhas, não. Talvez tivesse decidido encerrar o expediente mais cedo. Depois de muita hesitação, resolveram chamar no grito. Escolheram, com justiça, a atendente de voz mais potente.
E assim começou um curioso espetáculo: números sendo lançados ao ar, disputados por ouvidos atentos e, às vezes, nem tão atentos assim.
A ordem, porém, se perdeu. Quem chegou depois foi antes. Quem chegou antes protestou. Instalou-se um leve tumulto. Leve no sentido de que ninguém partiu para a briga, mas pesado o suficiente para que muitos se sentissem injustiçados.
Foi então que descobri que há categorias dentro da preferência. Existe o preferencial, o preferencial do preferencial e o superpreferencial, uma espécie de estado reconhecido apenas pelo olhar clínico do atendente.
Quando finalmente fui chamado, já me sentia aprovado no teste de paciência, parte de uma experiência sociológica bem sucedida. Fui encaminhado à sala de vacinas, onde o enfermeiro, muito correto, anotou meus dados. Preparava-se para iniciar os procedimentos, quando, de repente, parou.
Olhou para mim como quem percebe um detalhe decisivo.
— O senhor tem sessenta anos.
Confirmei, com a maior serenidade possível.
— A partir dessa idade, só com autorização médica - disse ele.
Tentei argumentar que fiz sessenta há pouco, quase ontem, quem sabe estivesse ainda dentro de alguma tolerância biológica ou margem de segurança.
Ele foi implacável.
— Não existe margem. Só com atestado médico.
Voltei para casa com a sensação de que havia envelhecido mais alguns anos naquele intervalo.
Procurei dois médicos, ambos conhecidos, ambos confiáveis. Um disse “faz”, o outro disse “melhor não”.
Fiquei, assim, com uma indicação, uma contraindicação e um dilema. No fundo, é o que sobra quando a vida decide não facilitar.
Lembrei, então, de algo que me disseram ano passado, quase como quem dá um conselho qualquer: depois dos sessenta, nada é tão simples quanto parece.
Não é.
Hoje sei que até para não ficar doente é preciso autorização.
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