
Eu estava na terceira fileira do Teatro Simões Lopes Neto quando Nelson Motta declarou:
— Sou muito grato ao Tim Maia, porque ele foi a pessoa que mais me fez rir na vida.
Em seguida, lembrou de uma de suas frases:
— Fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas, perdi quatorze dias.
Nelson fez um passeio leve e divertido pela própria trajetória, alternando manifestações de gratidão, humildade e orgulho.
Gratidão ao mestre Zuenir Ventura, aos amigos, aos que abriram portas e aos que trabalharam com ele.
— Não se faz nada sozinho.
Uma gratidão sem pose, dessas que nascem naturalmente em quem entendeu o valor do caminho percorrido.
Humildade ao reconhecer as limitações.
— Minha grande sacada foi reconhecer desde cedo que não tinha talento para ser músico.
Em vez de insistir onde não haveria futuro, encontrou seu lugar como letrista.
Houve também espaço para o orgulho: dos trabalhos realizados, dos muitos amigos, da trajetória construída e de nunca ter traído a confiança de ninguém. Foram décadas escrevendo uma coluna diária em O Globo, convivendo com artistas, egos e muitos segredos.
— E olha que eu sabia de todos os podres.
Lembranças não faltaram: da Elis, do Tom, do João Gilberto, da Marília Pera com que teve duas filhas e do genial amigo Glauber Rocha, ovacionado em Cannes aos vinte e três anos.
— Ele não merecia um fim de vida tão triste.
O que impressiona no Nelson Motta, é a absoluta ausência de qualquer necessidade de parecer maior do que é. Um homem que atravessou décadas nos holofotes convivendo com ídolos sem demonstrar qualquer sinal do ego inflado que costuma aparecer nos bastidores da fama.
Estávamos diante de alguém movido pelo afeto, incapaz de alimentar ressentimentos, desses que sofrem sinceramente quando os amigos se afastam.
— Quando Caetano e Paulo Francis brigaram, tive vontade de bater nos dois.
Então veio a reflexão que parecia amarrar tudo o que havia sido dito.
— Sou um cara de muita sorte. Desde cedo já diziam isso lá em casa. Sorte é uma coisa que não se explica. A grande questão é o que você faz com a sorte que tem. A isso eu chamo de ética da sorte. É preciso fazer algo bom com o que se ganha. Não desperdiçar, merecer.
Nelson tem um carisma raro, difícil de explicar. Uma simpatia espontânea, um espírito leve, quase juvenil. Chegou de bengala à sessão de autógrafos, mas o sorriso com que me recebeu ainda era o de um garoto.
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