
Três guris, todos aparentando menos de dez anos, batem à porta de uma senhorinha.
— Vó, viemos ver o jogo — anuncia o mais alto.
Estão fardados: camisetas dos times locais, calções Adidas já desbotados, kichutes com as travas gastas e uma bola de couro tão surrada que parece ter jogado todas as Copas desde 1930.
Ela concorda, impondo uma única condição:
— Nem pensem em usar essa bola dentro de casa.
Os três atravessam o corredor em direção a um pequeno quarto que faz as vezes de sala de tevê. Ali está a joia da casa, o verdadeiro motivo da visita: uma televisão colorida de vinte polegadas. Vinte polegadas que, naquela época, pareciam um telão de estádio.
Eles estão animados, conhecem os principais jogadores, discutem escalações e declaram torcida para a Laranja Mecânica.
Avanço oito anos.
Agora vejo alguns adolescentes espalhados pela sala. Hipnotizados pelo futebol-arte da seleção brasileira, fazem planos para a comemoração do título. Alguns já discutem onde será a festa. Outros, mais cautelosos, dedicam-se a escolher o melhor jogador da Copa.
Até que Paolo Rossi resolve estragar tudo.
O inimaginável acontece.
Naquele dia aprendemos uma dura e valiosa lição: não há justiça no futebol.
De volta ao presente, mais precisamente ao intervalo de Brasil e Marrocos, a churrasqueira reclama minha atenção. Enquanto cuido da carne, outros flashes de Copas passadas atravessam a memória como um compacto de melhores momentos: a chuva de papel picado que pintava de branco os gramados argentinos em 1978; o gol antológico de Maradona em 1986; a decepção de 1990; os gols de Romário em 1994; a imagem da família reunida; a alegria silenciosa de saber que um filho estava a caminho enquanto comemorávamos o tetra.
Percebo que consigo localizar cada Copa em algum capítulo da vida. Não lembro apenas dos jogos; lembro também de quem eu era e com quem estava.
Em 2022, assisti Brasil e Sérvia usando um colar cervical. Ao meu lado, dois baldes de pipoca: um para mim e outro para meu filho, que vinha me fazer companhia nas quintas-feiras depois que fraturei duas vértebras cervicais. Entre um lance e outro, eu tentava exorcizar a teimosa labirintite que custou a ir embora.
Volto, então, a 2006 na esperança de reencontrar alguma lembrança.
Mas nada. Nenhuma imagem, nenhum gol, nenhum lugar, nenhuma conversa.
Faço as contas e descubro que eu tinha quarenta anos.
Deve ser isso.
Talvez a famosa crise dos quarenta tenha me afastado do futebol. Talvez ela tenha sido mais econômica e simplesmente apagado a Copa da minha memória.
Ou talvez aquela seleção tenha jogado tão pouco que o cérebro, num gesto de autopreservação, decidiu arquivar tudo numa pasta chamada "dispensável".
E você? Lembra com quem estava na Copa de 2006?
Porque, no fim das contas, das Copas a gente esquece gols, escalações e até alguns campeões.
O que quase nunca esquece é quem estava sentado ao nosso lado no sofá.
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