Sem querer



Lembra do Aparício? Então. Ele voltou a se meter em enrascada.

Tudo por causa dessa mania de ficar rolando o feed do Instagram por horas a fio. Foram-se os livros, os filmes e as conversas em família. Ficaram para trás, substituídos pela necessidade insaciável de entretenimento instantâneo.

O problema é que Aparício costuma cometer algumas gafes por falta de destreza nos dedos. Também não tem traquejo nem muita noção de etiqueta nas redes sociais, mas isso não parece ser o maior dos problemas.

Esses dias, foi cobrado sobre um coraçãozinho em uma postagem que um homem com juízo deveria passar reto.

— O que significa isso?

Aparício olhou para a tela.

— Não significa nada.

— Como não significa nada?

— Eu não quis curtir.

— Mas curtiu.

— Curti. Mas sem querer.

Aparício jurou que se atrapalhou na hora de rolar o feed e acabou curtindo justamente o que não devia. Eu acredito. Já aconteceu comigo. Você está ali, inocentemente, passando o dedo pela tela, quando de repente aparece uma publicação que você jamais gostaria de ter visto, muito menos de ter deixado registrado que viu. Você quer se livrar logo daquilo passando o indicador para rolar, mas acaba clicando no maldito coraçãozinho.

E aí está o problema. O Instagram não sabe distinguir uma manifestação de apreço de um acidente doméstico. Um toque no lugar errado e pronto: você passou a admirar aquela pessoa, aquela opinião ou, pior, aquela foto feita para causar confusão. Daí para aparecer fumando charuto e bebendo uísque em festa com astronautas suíças, é um pulo.

Na manhã seguinte, veio outra bomba.

Logo cedo, começaram a chegar mensagens pelo WhatsApp.

— Aparício, explica isso aí.

— Que história é essa?

— Não sabia que tu pensava assim.

— O que aconteceu contigo?

Aparício não estava entendendo nada.

— Pensava o quê?

E então descobriu que estava marcado em uma postagem política daquelas que vêm com briga embutida.

— Mas eu não postei nada!

Não tinha mesmo. O problema é que havia curtido, por engano, um conteúdo político de gosto discutível e muito inflamável. E alguém, ao compartilhar a postagem, marcou Aparício.

Pronto. Para os amigos, a explicação era simples: Aparício havia se tornado politicamente radical durante a madrugada.

Sem discurso. Sem campanha. Sem intenção. Apenas com o dedo.

A partir daí, a situação saiu do controle. Um amigo mandou um áudio pedindo que Aparício explicasse “essa mudança de posicionamento”. Outro perguntou se ele havia "mudado de lado". Um terceiro, mais matreiro, apenas respondeu com um “entendi”.

Esse “entendi” preocupou Aparício mais do que os outros. Não havia nada para entender, mas ele sabia que, quando alguém responde apenas “entendi”, geralmente entendeu muito mais do que havia para ser entendido.

No trabalho, alguns colegas passaram a olhar para ele com desconfiança. No elevador, dois vizinhos interromperam a conversa quando ele entrou. Até o bom-dia do porteiro foi diferente.

Aparício começou a desconfiar que sua reputação estava sendo construída sem a sua participação. Já não bastava ter uma opinião. Era preciso também tomar cuidado para não adquirir uma por engano.

Antigamente, para se meter numa situação dessas, era preciso abrir a boca. Hoje, basta abrir o Instagram. E nem precisa escrever nada. Um coraçãozinho pode acabar com um casamento. Um toque errado pode comprometer uma amizade.

E um dedo desajeitado pode revelar ao mundo algo que você nem sabia que tinha.

Aparício decidiu tomar uma providência. Vai diminuir o tempo de Instagram. Voltar aos livros, assistir a alguns filmes e conversar mais com a família. E, principalmente, manter o dedo longe do celular.

Ele já descobriu que o indicador pode ser muito mais perigoso do que a língua.

Por enquanto, está tentando reaprender a usar os dois.

 

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