O que fica



Tios e tias são visitas interiores, coringas da existência. Captam aquilo que os pais não percebem, tão sobrecarregados que estão com as obrigações diárias, diz Carpinejar no texto em que homenageia um tio marcante da infância. Acho que ele acertou em cheio. Muitos talvez não tenham a dimensão exata da influência positiva que exerceram em nós.

Aos tios cabe o lúdico, a leveza, o humor, as boas aventuras. Meu tio inesquecível se chamava Sílvio. Trabalhava como cameraman na então TV Gaúcha, atual RBS, e era dono de um senso de humor bem peculiar. Era daqueles sujeitos que pareciam ter vindo de uma fábrica diferente. 

Tentou fazer de mim um colorado em uma família de gremistas. Não conseguiu.

Minha memória, felizmente, resolveu preservar algumas cenas daquele tempo. A mais antiga tem como cenário o Ginásio da Brigada Militar, para onde meu tio Sílvio me levou quando eu tinha cinco ou seis anos. Numa noite de domingo, hipnotizado por aqueles lutadores mascarados que se engalfinhavam no meio do ginásio, assisti às lutas do Ringue Doze, um lendário programa de luta livre de mentira transmitido ao vivo pela TV Gaúcha que tinha Ted Boy Marino e Fantomas como protagonistas. Voltei para casa impressionado e armado. Com dois grandes revólveres de espoleta e um belo coldre de couro, digno de um filme de faroeste.

Como um adulto podia ser tão leve? Essa era uma pergunta que eu nem pensava em fazer naquela época. Apenas aproveitava.

Ele brincava de luta comigo. Eu entrava na disputa acreditando que, dessa vez, poderia vencê-lo. Não podia. Em poucos segundos estava imobilizado, tentando escapar daquele adulto que parecia ter esquecido que era adulto.

Até que uma grossa cicatriz que ia do pescoço à barriga interrompeu nossas lutas. Era resultado de uma ponte de safena feita numa época em que uma cirurgia dessas parecia ser de outro mundo.

Também fazia pipas, ou pandorgas - não sei se ainda chamam assim. Uma folha de papel, algumas varetas e um pedaço de linha podiam produzir uma coisa extraordinária, algo que saía do chão e ganhava o céu. A pipa precisava de equilíbrio, vento e alguma paciência. Qualidades que eu não tinha. E talvez ainda hoje não tenha o suficiente.

Mas havia também o lado menos pedagógico.

O disjuntor geral ficava do lado de fora da casa da praia. Ele sabia disso e sabia, principalmente, o que fazer com a informação. Durante a novela das oito, desligava a energia para simular falta de luz, esperava alguns segundos e batia na janela.

Era o suficiente.

Dentro de casa, uma pequena confusão. Do lado de fora, meu tio provavelmente tentava conter o riso. Depois vinha a revelação, o restabelecimento da luz e a certeza de que aquilo se repetiria em alguma outra noite.

Visto de hoje, talvez não pareça grande coisa. Mas é dessas pequenas coisas que certas pessoas permanecem na nossa memória. Não porque tenham feito algo extraordinário, mas porque conseguiram transformar o ordinário em brincadeira.

Todo mundo deveria ter no mínimo um tio inesquecível. Pouco importa se de sangue ou de coração.

Quando, há algum tempo, um sobrinho emprestado me disse que o inspirei a tocar violão, lembrei do tio Sílvio. 

Inspiração é uma coisa curiosa. A gente nunca sabe quando está deixando uma pequena marca na vida de alguém.

Ele nunca soube o quanto algumas daquelas brincadeiras ficaram comigo. 

Eu também não sei que lembranças de mim vão ficar com aqueles que convivem comigo. Talvez seja melhor assim.

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