
Os frasistas estão desaparecendo. Não sei se alguém já comunicou o fato às autoridades competentes ou se elas estão satisfeitas com a extinção da categoria. A turma do Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes não deixou herdeiros à altura. Ou talvez os herdeiros estejam por aí, escondidos entre uma postagem e outra, sem conseguir espaço para respirar.
O frasista era um sujeito livre e perigoso. Bastava uma linha para desmontar uma certeza, fazer o leitor rir de si mesmo ou constranger um poderoso - no tempo em que os poderosos ficavam constrangidos. Não precisava escrever um tratado, convocar uma coletiva ou gravar um vídeo de quinze minutos. Dizia meia dúzia de palavras e deixava o resto por conta da nossa consciência, que nem sempre agradecia.
Millôr Fernandes, por exemplo, escreveu: “Certas coisas só são amargas se a gente as engole.”
É uma frase curta, mas capaz de provocar azia. Hoje, a convicção costuma ser confundida com conhecimento, e a certeza se tornou um produto fabricado em escala industrial. Com esta frase, Millôr nos lembrava que, às vezes, o gosto amargo depende da nossa disposição para mastigar o que não merece ser digerido.
Ele também aconselhava: “Jamais diga uma mentira que não possa provar.”
A recomendação era boa. Pena que tenha caducado. Foi escrita num tempo em que os mentirosos precisavam se preocupar com a possibilidade de serem desmascarados. O ambiente contemporâneo encontrou um atalho. Em vez de provar, basta construir uma narrativa que agrade a quem já está disposto a acreditar e atacar quem ousa desmenti-la.
Outro dia, reli esta frase: “Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito.”
Passamos boa parte da vida esperando que ela comece. Depois do vestibular, da formatura, do primeiro emprego, da casa própria, do casamento. Quando percebemos que o tempo não está esperando por ninguém, descobrimos que a vida vinha acontecendo o tempo inteiro, inclusive naquelas segundas-feiras que pareciam iguais a tantas outras.
Talvez por isso Millôr também tenha escrito: “Viver é desenhar sem borracha.”
Não há como apagar certas escolhas, refazer determinadas conversas ou recuperar os anos que desperdiçamos tentando agradar a quem pouco se importava conosco. Podemos, no máximo, aprender a conviver com os rabiscos. Alguns até servem para melhorar o desenho.
E havia a ironia, essa forma quase elegante de dizer verdades com um sorriso e uma dose de veneno. “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”. Precisa dizer mais? Eu costumava recorrer ao velho “De perto, ninguém é perfeito” até conhecer essa do Millôr.
Nelson Rodrigues conhecia os subterrâneos da alma humana. Stanislaw Ponte Preta transformava o ridículo em matéria-prima para o humor. Millôr parecia ter uma oficina onde desmontava ideias e certezas para ver do que eram feitas.
Os três tinham algo em comum: desconfiavam das aparências e não se intimidavam diante do absurdo. Não escreviam para agradar a todos. Sabiam que uma boa frase podia provocar risos, mas também indigestão.
Uma hipótese para explicar esse misterioso desaparecimento me ocorre. Vivemos numa época em que todos querem falar, poucos querem ouvir e quase ninguém parece disposto a perder tempo pensando no que acabou de ler. As frases estão sendo feitas para produzir indignação instantânea ou para confirmar aquilo em que já acreditamos. Se exigirem pensamento crítico, não servem.
O mundo continua cheio de frases. O que parece faltar é aquele sujeito capaz de olhar para uma situação corriqueira, enxergar o que está escondido nela e devolver a essência em poucas palavras.
Talvez os frasistas não tenham desaparecido. Apenas descobriram que, para fazer sucesso, é melhor escrever mais e dizer menos.
Enquanto isso, sigo insistindo no assunto. Afinal, caso eles estejam mesmo em extinção, alguém precisa ao menos registrar a ocorrência.
Só não prometo que a frase final seja boa. Millôr deixou a régua muito alta.
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