
Em 1985, Roland Orzabal e Curt Smith estavam no auge do sucesso. O Tears for Fears havia conquistado o mundo e excursionava pelos Estados Unidos, apresentando-se para plateias que sabiam suas músicas de cor.
Certa noite, depois de um show em Kansas City, voltaram ao hotel, tomaram banho, trocaram de roupa e desceram ao bar, como costumavam fazer.
Encontraram um ambiente bem diferente daquele a que estavam acostumados. No pequeno palco, Oleta Adams cantava e tocava piano acompanhada apenas de um baixista e de um baterista. O repertório passeava pelo soul, pelo jazz e pelo gospel.
Roland e Curt se acomodaram e ficaram ouvindo. O lugar tinha uma atmosfera quase religiosa, de tão silencioso e concentrado. Era o tipo de bar em que as pessoas podiam conversar sem precisar aumentar o volume da voz. A música tomava conta do ambiente.
O que impressionou não foi apenas a qualidade técnica da cantora, mas também a maneira como ela transmitia emoção. Aquela apresentação mostrava algo que a tecnologia e a complexidade dos arranjos não era capaz de mostrar: a capacidade da voz humana de comunicar sentimentos.
Oleta sabia que os dois estavam ali, mas não mudou sua maneira de agir. Estava acostumada a receber artistas conhecidos entre o público do bar. Não foi até a mesa, não tentou puxar conversa nem interrompeu a apresentação para cumprimentá-los. Roland e Curt também não foram até ela. Ouviram a apresentação, ficaram impressionados e foram embora sem trocar uma palavra.
A vida seguiu seu curso. Pelo menos, aparentemente.
Em 1987, quando Roland compôs Woman in Chains, percebeu que a música pedia uma voz feminina capaz de dar profundidade e emoção à interpretação. Logo pensou em Oleta.
Decidiram então localizá-la. Telefonaram para o hotel, que os colocou em contato com o agente dela. O contato chegou até Oleta através de uma ligação de Roland numa ensolarada manhã de setembro.
Pense na situação do ponto de vista dela. De repente, um músico de uma das bandas mais populares do mundo telefonava para dizer que, dois anos depois, ainda se lembrava da voz dela. E não estava ligando para elogiá-la. Queria convidá-la para participar do próximo álbum.
No fim de 1987, os dois viajaram até Kansas City para encontrá-la. Passaram alguns dias com ela, foram à sua casa, conversaram, tocaram piano, mostraram músicas, ouiram discos e acompanharam apresentações.
Oleta aceitou o convite.
No ano seguinte, viajou à Inglaterra para trabalhar nas gravações do The Seeds of Love. Sua voz ganhou destaque em Woman in Chains e Badman's Song, e ela também contribuiu para outras faixas do disco.
Em Woman in Chains, Oleta não apenas contribui com timbre e intensidade própria. Ela estabelece um contraponto à voz de Roland, dando à música uma dimensão dramática que seria difícil imaginar sem aquela voz. Transforma tensão em cumplicidade.
A participação também abriu novas portas para Oleta. Com o apoio de Roland, ela conseguiu um contrato com uma grande gravadora e lançou sua carreira solo. Além de produzir seu trabalho, ele defendeu a personalidade artística dela com a frase Deixem-na simplesmente cantar.
Tanto Oleta quanto o Tears for Fears saíram maiores dessa história.
A música ficou, e a lembrança também. Dois presentes que esse encontro improvável nos deixou.
Às vezes, uma história começa muito antes de a gente perceber.
Este site utiliza cookies para garantir a melhor experiência.