
— Me espera às sete na frente do prédio da Engenharia Nova — disse ele. Assim marcamos nosso encontro antes de ir para o Olímpico.
Passava das seis e meia quando desci do ônibus na praça Dom Feliciano e segui em direção ao campus contornando a Santa Casa. Nenhum prédio novo à vista. Só fachadas velhas, paredes descascadas e construções que pareciam ter sobrevivido a muitas gerações de estudantes.
Perguntei a algumas pessoas que passavam sobre o tal prédio novo, mas ninguém soube responder. Percebi, então, que um edifício se destacava dos demais pela arquitetura. Era claramente mais recente, ainda que nada tivesse de moderno. Resolvi esperar ali.
Naquela época não havia celular nem qualquer outra forma de resolver um desencontro à distância. Se estivesse errado, perderia o jogo.
Por que uma lembrança tão banal resiste intacta por quarenta e tantos anos? Nossa amizade acumulou episódios muito mais marcantes.
Não faltariam histórias mais interessantes para lembrar. Como aquela viagem ao Uruguai, apertados num carro que prometia espaço, calculando se a gasolina daria para chegar à fronteira. Ou a visita ao estádio Centenário deserto, que só aconteceu graças à boa vontade do zelador depois de demonstrarmos nossa admiração pelo futebol uruguaio. Ou ainda aquela pescaria desastrosa no Farol da Solidão, quando um ciclone levou nossa barraca e deixou o carro enterrado na areia de uma duna até a altura das portas.
Também poderia lembrar dos muitos churrascos que ele prepara, nos quais minha contribuição costuma se limitar à caipirinha. Ou dos réveillons em Xangri-lá, quando pulamos as sete ondas na esperança de que o ano seguinte seja ainda melhor.
Mas foi daquela noite que lembrei. Daquela em que fomos ao jogo porque esperei no lugar certo. Levávamos o otimismo de sempre e uma almofada para não congelar no assento frio do estádio.
Hoje, estou aqui no hospital, confiante na sua plena recuperação.
Talvez as pessoas que marcam nossa história o façam por motivos que nem sempre conseguimos explicar. Às vezes, não é preciso um grande acontecimento. Basta um convite, um gesto, uma conversa. Pequenos sinais de confiança e cumplicidade que, com o tempo, acabam se transformando em lembranças que resistem a tudo.
A amizade tem dessas coisas: um dia estamos combinando um encontro antes de um jogo; décadas depois, descobrimos que aquele momento, aparentemente sem importância, continua guardado em algum lugar da memória.
Muita coisa mudou nesses anos todos.
Mas, se depender de mim, continuo esperando na frente do prédio da Engenharia Nova.
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