
O auditório estava quase lotado. Restavam apenas alguns lugares espremidos junto às paredes, todos de difícil acesso. Aparício teve que vencer suas aflições. Foi pedindo licença, tropeçando num ou noutro pé, esbarrando num joelho aqui, num cotovelo ali, até vencer a travessia.
É impressionante como sempre tem alguém disposto a dificultar a passagem, pensou.
Logo ao sentar, percebeu que estava cercado de mulheres. Ampliou o campo de visão e viu que a cena se repetia. Mulheres. Quase só mulheres. Espalhados pelo auditório, pouco mais que meia dúzia de homens, ilhas perdidas num oceano feminino. Sentiu-se como se tivesse entrado por engano no banheiro feminino.
Tudo bem que elas leiam mais do que nós. Mas tanto assim?
— Obrigada a todas vocês pela presença! — disse a escritora.
Naquele instante, percebeu que era uma exceção estatística. De espectador deslocado passou a penetra oficial em evento de mulheres. Mas, enfim, já havia acumulado alguma experiência em situações desse tipo. Tentou esquecer as primeiras impressões e resolveu aproveitar a boa palestra que estava por vir.
Os primeiros comentários giraram em torno do último livro da escritora. Logo migraram para o machismo, depois para a violência contra a mulher e, dali em diante, não houve mais saída de emergência. O clima foi mudando lentamente, ficando tenso, pesado, como não podia deixar de ser.
Àquelas alturas, Aparício recebia olhares esporádicos de algumas vizinhas. É difícil dizer se os olhares já existiam e ele só passou a perceber quando o ambiente pesou. Uma coisa, porém, era certa: não eram olhares de flerte.
Em pensamento, levantou e disse:
- Espera aí, pessoal. Não vamos generalizar. Nós não somos todos iguais. Tem muito homem bom por aí. Eu, por exemplo, lavei toda a louça antes de sair. Alguns de nós até abaixam a tampa do vaso.
Em atitude, permaneceu imóvel.
A cada novo relato, argumento ou acusação, sentia uma estranha necessidade de explicar que nunca havia feito aquilo, como se alguém pudesse interromper a palestra e perguntar sua versão dos fatos. Já não era Aparício. Era "um homem na plateia". O representante não eleito de metade da humanidade. E carregou esse cargo honorário até o último aplauso. Sem direito a trégua.
Afundado na cadeira, Aparício sentiu um carrossel de emoções quando o auditório começou a esvaziar. Esqueceu a culpa coletiva por um instante e pensou nos maridos daquelas mulheres de semblantes nada amistosos que deixavam o local. Não conseguia evitar a fantasia. Imaginava maridos inocentes preparando uma tábua de frios, abrindo um vinho, escolhendo um filme romântico sem desconfiar da tempestade que avançava. Aquela noite seria longa.
Saiu em silêncio. Por via das dúvidas, decidiu não cumprimentar desconhecidas, nunca mais esquecer a toalha molhada sobre a cama e trocar a lâmpada da área de serviço que estava queimada fazia dias.
Chegou em casa, deitou, fechou os olhos e descobriu que sua consciência também tinha assistido à palestra. Ela não perdeu tempo:
Você, hein, Aparício! Entrou como espectador e saiu como réu imaginário!
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