O braço esquerdo do sofá



Napoleão tinha um carisma excepcional, daqueles que conquistam a gente no primeiro olhar. Era paparicado por todos, menos pelo Bob, que nunca perdoou a popularidade do rival. Quando estava em casa, Napoleão tomava posse do braço esquerdo do sofá e monopolizava a nossa atenção. Bob, coitado, precisava se contentar com um pano estendido no canto da sala, sem vista para a televisão nem para a porta de entrada. Era a arquibancada da torcida visitante.

Napoleão tinha o hábito de desaparecer por dias. Sumia pelo mato e reaparecia quando bem entendia, sempre com aquele ar de quem volta de um compromisso importante. Na ausência do concorrente, Bob enfim ocupava o posto de xodó oficial da família e parecia esquecer todas as injustiças do mundo.

A vida seguia sem sobressaltos, até o dia em que tio Euclides e tia Eulália chegaram de mala e cuia naquela manhã de domingo. Meus pais ficaram muito felizes com a visita, e sempre que isso acontecia, algum galináceo pagava o pato. Naquele dia seriam dois. 

Entretido no conserto do galpão, meu pai adiava o sacrifício dos penosos sob protestos recorrentes da mãe. Bastava escolher entre os que ciscavam pelo terreno, mas ele não gostava de começar um serviço antes de terminar o outro.

Então, tio Euclides tomou a iniciativa. 

- Deixa comigo. Me passa o facão e continua aí.

Pegou o facão e saiu pelo terreno seguido por Bob, que adorava participar de qualquer missão que lhe rendesse alguns pontos com os humanos, ainda mais na ausência do Napoleão. 

Uma hora depois, voltaram com dois animais grandes, já devidamente depenados. Dava para ver o orgulho dos heróis da expedição. Tio Euclides reconstituía a caçada como quem havia enfrentado um javali, enquanto Bob confirmava tudo abanando o rabo. 

O almoço foi festivo: macarrão, galinha, salada de radite, vinho de garrafão e histórias de caçadas. Todos estavam felizes. Tio Euclides, porém, insistia que bicho de sítio não nasceu para ganhar nome. 

No dia seguinte, as visitas foram embora, e a rotina voltou ao normal. Menos uma coisa. Napoleão não voltou.

Vez por outra, quando alguém lembra daquele almoço, um silêncio estranho toma conta da mesa. Napoleão nunca mais apareceu. Às vezes lembro dele caminhando pelo quintal como um imperador em visita aos próprios domínios, distribuindo a rara honra de aceitar um afago. 

Desde então, passei a olhar para o Bob de um jeito diferente quando ele assume seu novo posto ao lado esquerdo do sofá. Ele sustenta o olhar por alguns segundos, abana o rabo e muda de assunto. Este lugar da casa tem um pacto antigo com o silêncio. Fico imaginando quantos segredos um cachorro consegue esconder.

 

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