
Antes das cortinas caírem, Luiz Fernando pediu para que falássemos bem da peça por aí. Estou aqui atendendo ao pedido, e espero que ele entenda minha incapacidade de falar bem sem dar spoiler. Como a peça não está mais em cartaz em Porto Alegre, o estrago será menor.
Como pode uma pessoa de 76 anos ser tão jovem? Talvez a juventude não esteja apenas no humor, mas na disposição, no ritmo, na capacidade de não levar a si mesmo tão a sério. O talento para fazer rir permanece intacto, e isso ele tem de sobra.
A peça é ótima. Aborda com ironia a obsessão por status e ascensão social e cutuca os contrassensos do jeitinho brasileiro. Ou, pelo menos, foi assim que a entendi: uma crítica muito divertida à velha arte brasileira de transformar pequenas trapaças em quase virtudes.
O elenco é muito bom, mas senti falta do personagem Gomercindo, que não aparece fisicamente no palco. Não sei se isso é uma crítica ou uma reclamação formal em nome dele. Afinal, Otávio — personagem interpretado pelo Luiz Fernando — passa boa parte da história se beneficiando da existência e da ausência dele.
Otávio se aproveita de Gomercindo com uma naturalidade desconcertante, dessas que seriam caso de polícia em outras culturas. Diante da crise financeira, recorre ao “jeitinho” para ler as notícias no jornal do vizinho, desviar um pouco de leite da porta alheia, usar a eletricidade dos outros e pegar carona na internet de quem paga a conta.
Eu já tenho até um nome para interpretar Gomercindo: Marco Nanini. Não sei se aceitaria, mas, diante da quantidade de pequenos golpes que o personagem sofre, acho que o papel cairia muito bem naquele talento. Renderia um conflito bem divertido: alguém teria de aparecer para tentar cobrar a conta.
Para ser justo, é preciso dizer que o texto é de Juca de Oliveira. Foi escrito em 1979 e continua mais atual do que nunca nessa sociedade cheia de Otávios e Gomercindos.
E então, Luiz Fernando: falei bem da peça. Só não prometi guardar segredo.
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