Solidão com vista para o mar



A voz já não é a mesma. Longe disso. A vitalidade também foi atravessada pela implacável passagem do tempo. Perdem-se algumas coisas, ganha-se outras.

A alegria de ver o Araújo lotado, vibrando, contagiava. Você me abre seus braços e a gente faz um país.

Havia um mistério naquela equação imperfeita: uma voz marcada pela escassez, um corpo que já não responde com a mesma rapidez, e ainda assim, aquela capacidade quase teimosa de reunir gente, de acender luzes dentro dos outros. O tempo, ao cobrar seu preço, deixa em troca uma espécie de verdade: menos brilho, mais densidade.

No palco, Gustavo Corsi desfilava sua guitarra com um desleixo calculado, vestindo um calção adidas anos 80 - meio Angus Young de Ipanema -, como se o tempo também pudesse ser usado como um figurino que a gente veste para lembrar quem já foi.

E ali, no meio de tudo, uma rara sensação de liberdade emocional. Era permitido sentir o sangue correr nas veias, demonstrar vulnerabilidade e abrir espaço para a melancolia que nos habita. Sem juízo de valor, sem a obrigação de parecer feliz o tempo todo, sem medo de parecer o que se é.

"E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar, ou outra coisa pra lembrar ", cantou Marina, iluminada pelas luzes dos celulares. E o casal da fileira à frente dançava emocionado, de mãos dadas  - até que o vendedor ambulante quebrou o clima com um grito: "olha a pipoca"

Na música, ainda é possivel viver um carrossel de sentimentos. Alegria, tristeza, saudade, euforia, paz, tudo girando sem precisar de lógica ou explicação. Ainda é possível viver a catarse de Aristóteles, mandar embora as emoções acumuladas.

As luzes se acenderam, o casal parou de dançar, o vendedor seguiu seu caminho, o público foi embora renovado. Todos voltaram para casa um pouco mais felizes, até mesmo quem vive preso à solidão com vista para o mar. 

 

 

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