O dia pode esperar



O bar abre cedo. Há coisas que, se não começam logo, correm o risco de nem acontecer. A sobriedade, por exemplo.

As mesas e cadeiras de plástico são democráticas: todas desconfortáveis, todas expostas ao sol e à vida. Espalham-se pela calçada como peças de um jogo sem regras escritas, mas que ninguém ousa contrariar. Cada freguês escolhe sua ilha com a dignidade de quem já desistiu de disputar território. 

Eles chegam em silêncio, um por um, e sentam-se sozinhos. Isso é importante: não é apenas solidão, é também método. Há uma etiqueta que proíbe dividir mesa antes da terceira garrafa ou da quarta dose.  

Pedem cerveja sem cerimônia, sem especificações, como quem confirma o óbvio:

- Vê uma aí.

E ficam ali, cada um com sua garrafa, olhando para a rua como se esperassem que algo importante passasse. E quando passa, geralmente é um cachorro, um ônibus atrasado ou alguém com pressa de viver, o que dá mais ou menos na mesma.

A cerveja esquenta rápido, mas eles não se incomodam. Pedem outra antes que a primeira termine, num gesto que é menos sede do que continuidade. O copo é um intervalo entre um pensamento e outro, e às vezes o único jeito de atravessar a manhã sem perceber o tempo.

O que pensam? Provavelmente coisas profundas, como “será que já posso pedir outra” ou 
“por que a vida não vem com manual e cerveja grátis”. Deve haver também pensamentos mais elaborados, que surgem entre um gole e outro como bolhas filosóficas: “Em que momento foi que eu comecei a vir aqui todo dia?”

A cerveja ajuda. Não resolve, mas ajuda. É como um amigo que não dá conselho, só concorda com você. Há quem diga que é prejudicial. E é. O fígado, esse estraga-prazeres, tem opiniões fortes sobre o assunto. A família também, quando ainda opina. A sociedade, sempre solícita, oferece alternativas como academia, terapia, cursos de marcenaria ou grupos de apoio, mas nenhum desses lugares tem mesas na calçada às oito da manhã.

Ali, naquele bar, existe uma forma peculiar de equilíbrio. Um sujeito sozinho em cada mesa, todos juntos na mesma tentativa de não desmoronar antes do meio-dia. É uma engenharia delicada: cerveja suficiente para amortecer o mundo, mas não tanta a ponto de esquecê-lo completamente. Dizem que funciona.

O dono do bar entende tudo sem entender nada. Serve as cervejas, recolhe as garrafas vazias e, de vez em quando, pergunta:

— Outra?

E eles ficam. Porque sair dali implicaria voltar ao mundo, e o mundo, como se sabe, não tem cadeiras de plástico reservadas para ninguém, nem garçom que pergunte "outra?" antes da gente admitir que precisa.

Então permanecem. Fiéis ao ritual. Fiéis à mesa. Fiéis à ideia absurda e confortável de que, enquanto houver cerveja, o dia pode esperar.
 

 

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