Cinco estrelas, zero sossego



Trata-se de uma festa dançante de longa duração. Dito assim, parece divertido, desde não seja na casa ao lado. Se o vizinho aluga por Airbnb, mais dia, menos dia, você será premiado com essa experiência impar. “Só alugo pra hóspedes cinco estrelas”, ele garante. A gente até acredita. O problema é que sempre aparece alguém disposto a sacrificar a própria reputação em nome de uma rave. 

É enlouquecedor aquele tum-tum-tum ininterrupto que estremece a casa e os tímpanos dia e noite. No primeiro dia, o sangue sobe; no segundo, ferve. Tenho a impressão de que a quantidade de pessoas com o talento especial para infernizar a vida alheia vem aumentando nos últimos tempos. Talvez seja apenas o efeito do tempo passando por mim.  

O mais curioso é que não são só adolescentes em surto inaugural de liberdade. Há adultos ali. Adultos daquela faixa etária que já tem plano de saúde e dor lombar. Dançam com a energia de quem redescobriu a noite e a resistência de quem vai pagar por isso na segunda-feira. Há algo de comovente, quase nobre, nesse esforço coletivo de desafiar o tempo, ainda que à custa do sono alheio.

Não adianta tocar a campainha, telefonar ou até mesmo buzinhar feito um desesperado. Ninguém ouve. A certa altura, você pensa em jogar tomates. A ideia é tentadora, mas envolve custos e possíveis represálias. Os festeiros mais exaltados, turbinados sabe-se lá com o quê, podem querer pegar você. Em último caso, chame a polícia. 

Enquanto ela não chega, você evolui. Desenvolve uma audição seletiva que faria inveja a monges tibetanos, aprende a odiar pessoas que nunca viu e passa a calcular quantos decibéis faltam para a alma abandonar o corpo. O silêncio, nesse ponto, já não é ausência de som: é um conceito filosófico.

No fim, quando a música para e o exército festivo debanda deixando para trás um rastro de copos plásticos e dignidade duvidosa, instala-se um silêncio tão profundo que chega a zumbir nos ouvidos. É nesse momento que você percebe que sobreviveu. E, como todo sobrevivente que quer paz, já começa a temer o próximo feriadão.

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