
Uma grande montanha escondia vários índios em tocaia. A cavalaria que escoltava a carroça dos mantimentos se aproximava da armadilha sem perceber o perigo. Havia tensão no ar. O forte ainda estava longe, e o destino da caravana era incerto. Logo, os tiros do fogo cruzado seriam ouvidos como zunidos supersônicos, e as primeiras vítimas começariam a tombar. Então instalava-se o caos. Homens gritavam ordens de avanço e recuo, traçavam estratégias e lançavam-se com coragem ao combate corpo a corpo. Cenas como essa aconteciam com alguma frequência nas tardes chuvosas de inverno da minha infância.
A montanha era um surrado cobertor marrom, cuidadosamente ajeitado para parecer real. Os homens eram soldadinhos e índios de um brinquedo da Gulliver chamado Forte Apache, pintados com realismo elogiável. A carroça, o forte, as cabanas, as escadas, as ocas e todos aqueles detalhes faziam meus olhos brilharem e incendiavam minha imaginação. Eu era o protagonista: roteirista, diretor, técnico de som e dublador do filme.
Tudo começava com o tédio de estar sozinho, sem poder sair de casa e sem desenho animado para assistir. Terminava com a encenação de um filme de faroeste ou com o arrastar de carrinhos por ruas improvisadas feitas de varetas pelo quarto. Na origem de tudo, havia algo que hoje parece cada vez mais raro: o olhar perdido no nada, a divagação, a abstração, a imaginação própria do tempo livre.
Algo me faz lembrar dessas brincadeiras quando vejo crianças pequenas hipnotizadas pelas telas dos celulares, alheias ao mundo ao redor, sem interações sociais, tropeçando nos próprios obstáculos físicos sem sequer levantar os olhos. Estão consumindo o conteúdo criado por alguém. Sempre espectadoras, quase nunca autoras da própria fantasia.
Este é um dos muitos aspectos silenciosos da transformação que estamos vivendo. Não apenas a troca de brinquedos analógicos por telas, mas a substituição da imaginação pelo entretenimento pronto. Antes, o vazio exigia invenção. O tédio era um convite à criatividade. Hoje, qualquer intervalo é imediatamente preenchido por vídeos curtos, estímulos rápidos e recompensas instantâneas. Filas, salas de espera, trajetos curtos, pequenos intervalos, tudo precisa ser preenchido. A distração virou reflexo automático. E, aos poucos, vamos perdendo a tolerância ao silêncio e à concentração prolongada.
A mente raramente fica sozinha consigo mesma, e talvez seja justamente nesse espaço que nasçam algumas das experiências mais importantes: a capacidade de associar ideias, sentir, inventar, pensar sobre a própria vida. Divagar nunca foi perda de tempo. Pelo contrário. Muitas vezes é no aparente desperdício de tempo que a gente organiza memórias, amadurece emoções e produz pensamentos originais.
Estamos diante de um novo desafio: como desenvolver criatividade sem tempo livre, sem imaginação, sem ócio, sem poder de concentração? O que diria De Masi?
Ainda é cedo para respostas definitivas. É possível que as novas gerações desenvolvam habilidades diferentes das nossas, e que encontrem outras formas de criatividade, abstração e inteligência que ainda não conseguimos compreender. Toda geração tende a desconfiar do mundo que substitui o seu, diz meu lado otimista.
Mesmo assim, existe algo simbólico naquele guri sozinho no quarto, inventando batalhas épicas com um Forte Apache e um cobertor marrom numa tarde chuvosa de inverno. Não era apenas uma brincadeira. Era um exercício de imaginação, concentração e autonomia. E talvez seja disso que eu sinta saudade quando vejo uma criança hipnotizada por uma tela: não dos brinquedos antigos, mas daquele espaço vazio onde a imaginação era obrigada a aparecer.
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