Você lembra com quem estava na Copa de 2006?



Três guris, todos aparentando menos de dez anos, batem à porta de uma senhorinha.

— Vó, viemos ver o jogo — anuncia o mais alto.

Estão fardados: camisetas dos times locais, calções Adidas já desbotados, kichutes com as travas gastas e uma bola de couro tão surrada que parece ter jogado todas as Copas desde 1930.

Ela concorda, impondo uma única condição:

— Nem pensem em usar essa bola dentro de casa.

Os três atravessam o corredor em direção a um pequeno quarto que faz as vezes de sala de tevê. Ali está a joia da casa, o verdadeiro motivo da visita: uma televisão colorida de vinte polegadas. Vinte polegadas que, naquela época, pareciam um telão de estádio.

Eles estão animados, conhecem os principais jogadores, discutem escalações e declaram torcida para a Laranja Mecânica.

Avanço oito anos.

Agora vejo alguns adolescentes espalhados pela sala. Hipnotizados pelo futebol-arte da seleção brasileira, fazem planos para a comemoração do título. Alguns já discutem onde será a festa. Outros, mais cautelosos, dedicam-se a escolher o melhor jogador da Copa.

Até que Paolo Rossi resolve estragar tudo.

O inimaginável acontece.

Naquele dia aprendemos uma dura e valiosa lição: não há justiça no futebol.  

De volta ao presente, mais precisamente ao intervalo de Brasil e Marrocos, a churrasqueira reclama minha atenção. Enquanto cuido da carne, outros flashes de Copas passadas atravessam a memória como um compacto de melhores momentos: a chuva de papel picado que pintava de branco os gramados argentinos em 1978; o gol antológico de Maradona em 1986; a decepção de 1990; os gols de Romário em 1994; a imagem da família reunida; a alegria silenciosa de saber que um filho estava a caminho enquanto comemorávamos o tetra. 

Percebo que consigo localizar cada Copa em algum capítulo da vida. Não lembro apenas dos jogos; lembro também de quem eu era e com quem estava.

Em 2022, assisti Brasil e Sérvia usando um colar cervical. Ao meu lado, dois baldes de pipoca: um para mim e outro para meu filho, que vinha me fazer companhia nas quintas-feiras depois que fraturei duas vértebras cervicais. Entre um lance e outro, eu tentava exorcizar a teimosa labirintite que custou a ir embora. 

Volto, então, a 2006 na esperança de reencontrar alguma lembrança.

Mas nada. Nenhuma imagem, nenhum gol, nenhum lugar, nenhuma conversa.

Faço as contas e descubro que eu tinha quarenta anos.

Deve ser isso.

Talvez a famosa crise dos quarenta tenha me afastado do futebol. Talvez ela tenha sido mais econômica e simplesmente apagado a Copa da minha memória.

Ou talvez aquela seleção tenha jogado tão pouco que o cérebro, num gesto de autopreservação, decidiu arquivar tudo numa pasta chamada "dispensável".

E você? Lembra com quem estava na Copa de 2006?

Porque, no fim das contas, das Copas a gente esquece gols, escalações e até alguns campeões.

O que quase nunca esquece é quem estava sentado ao nosso lado no sofá.

 

 

 

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