
Homem Não Chora apareceu como sugestão em uma das minhas muitas playlists do Spotify. Na mesma hora, lembrei de uma cena que nunca saiu da minha cabeça.
Um pedreiro, sentado, escondido entre duas pilhas de tijolos. Lágrimas caiam do seu queixo sem tocar o chão. Seu rosto vermelho e molhado era só dos olhos pra fora, porque todo mundo sabe que homem não chora.
Tínhamos algo em comum: a mais antiga das contradições masculinas. Negociar diariamente entre aquilo que se sente e aquilo que se aprendeu a esconder. A gente se acostuma, e até esquece, mas, de repente, uma imagem faz tudo balançar.
Sorri. Há frases que envelhecem pior do que leite fora da geladeira.
Conheço muitos que nunca derramaram uma lágrima em público. Em compensação, colecionam gastrites, silêncios, insônias e respostas monossilábicas. São especialistas em trocar sentimentos por um "tá tudo bem". Uma promoção curiosa: pague com a alma e ganhe um diploma de durão. Funciona quase como um mantra. Não para convencer os outros. Para convencer o espelho.
Talvez por isso a música do Frejat incomode tanto. Ela não acusa, não aponta o dedo, não dá lição de moral. Apenas encosta numa parede que passamos a vida inteira construindo, tijolo por tijolo. Quase nunca percebemos que acabamos do lado de dentro dela, e basta um refrão para aparecer uma rachadura.
Desde cedo, aparece alguém com um novo lote de tijolos: "engole o choro", "isso passa", "seja forte". Um entrega cimento, outro empresta a colher de pedreiro, um terceiro confere se a parede continua alta o suficiente para esconder qualquer fraqueza. Quando a construção finalmente fica pronta, todos elogiam a solidez. Ninguém pergunta quem ficou preso lá dentro.
Sempre imaginei que aquele pedreiro estivesse escondido para esconder as lágrimas.
Hoje desconfio de outras hipóteses.
Talvez estivesse apenas procurando o único lugar onde ninguém lhe pedisse para segurar mais uma. Talvez ele tivesse escolhido justamente o único canto da obra onde pudesse largar o peso que carregava. Não o dos tijolos. Esse ele conhecia bem, mas o outro, bem mais pesado, que precisava sustentar a fantasia de que homem forte não desaba.
Pensando bem, existe uma explicação para tanta parede mal-acabada por aí.
É que ninguém calculou o peso de uma lágrima contida.
Nem existe cimento capaz de segurar uma rachadura dessas.
Uma vistoria técnica na ironia do Frejat diria: homem não chora, só apresenta vazamento estrutural.
De repente, entra um cisco no olho, e a gente lembra daquela parede costruida com muito esforço. Tijolo por tijolo.
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